terça-feira, 22 de abril de 2014


"Reverências Bibliográficas" por Iara Fernandes


...quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
(...)
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
(...)
Domá-los, cultivá-los em aquários, em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los para fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Caetano Veloso/ LIVROS


Já foi dito por aí que, ao vermos as estrelas no céu, uma parte delas já morreu, há muito tempo, pois a sua distância de nós era tão grande que, quando a luz torna-se visível, elas mesmas já não existem mais, de maneira completa. Talvez esse poético pensar sirva à leitura, pois cada leitor incendeia a poeira estelar literária, ao cruzar, por meio do próprio ato da leitura, suas apreensões de agora com as da obra, no contexto em que ela foi feita. Uma primeira leitura ou uma releitura da história da Branca de Neve (Irmão Green), por exemplo, completa o discurso da obra, escrita séculos atrás, acendendo essa escrita, nos dias de hoje. Assim é, pois as artes da escrita nunca estão providas de apenas um significado, passam por temperadas mutações, são recheadas de sentidos e, a cada tentativa ou efetivação de leitura, o texto é reconstruído e, com esse ato, recupera-se uma realidade, em vez de se distanciar dela. São as experiências do leitor e seu infinito potencial que animam os sentidos que pulsam na veia dos textos.

A maioria dos municípios brasileiros já conta com biblioteca, se não a da cidade, pelo menos a de uma escola (lamentavelmente, algumas são transformadas em depósito de materiais diversos ou espaço de trabalho para funcionários que não se adaptaram em outros setores pedagógicos) e, junto à constituição desses espaços, há ainda alguns modos alternativos de promoção de leitura:

Açougue Cultural: o proprietário instalou, em seu açougue, uma estante com dez livros para empréstimos e doações e transformou-o no primeiro Açougue Cultural do mundo. Tempos depois, além da biblioteca comunitária (45 mil livros) há um espaço cultural cujos maiores parceiros são a Petrobrás e o Ministério da Cultura, com atividades que integram o Calendário Cultural do Distrito Federal.

Bilbioburro: uma pequena instituição de um homem e dois burros. Nas costas dos animais, bolsas com uma eclética carga de livros destinados aos habitantes das pequenas vilas de uma região empobrecida da Colômbia. No início, eram 70 livros, hoje, uma coleção com mais de 4.800.

Bibliotáxi: biblioteca que funciona dentro dos automóveis. Pessoas interessadas por algum dos livros disponíveis podem levá-lo para casa e seus nomes ficam registrados em um caderno. Livro lido, ele pode, ou não, ser entregue em um dos pontos de devolução.

Bicicloteca: um ex-morador de rua e um sonho: livros e acesso à leitura para outros moradores de rua. Em parceria com o instituto Mobilidade Verde, as obras são colocadas no baú de triciclos e emprestadas, sem burocracia. Dos 107 mil distribuídos, 60% estão com pessoas em situação de rua.

Borrachalioteca: pneus, graxa, carros e livros convivendo na maior harmonia, dentro de uma borracharia. No início eram 70 livros. Dez anos depois, são aproximadamente 10 mil, só em uma das quatro unidades.

Léo do peixe: um pescador do rio São Francisco criou um Clube da Leitura junto à banca onde vendia o seu peixe. Sete anos depois e já eram 15 bibliotecas populares e um acervo de 20.000 livros doados, para empréstimo gratuito, à população.

Em tempos de leituras rápidas em redes sociais, às vezes até com a limitação em 140 caracteres, há
quem critique, questionando se essas iniciativas não seriam apenas mais um tipo de incentivo a uma leitura primeira e, quem sabe, superficial... eu enxergo duas possibilidades: uma de que, para alguns, livros ainda cabem bem no orçamento familiar e são mais atraentes que as telas touchscreen; e outra de que essas ações solidárias sejam – para um grande grupo – as únicas opções reais de leitura.

Nada de enunciados chorosos nos quais livros de contos, crônicas ou poemas, em vez de apenas revistas de fofocas televisivas, sejam proclamados, em salas de espera de consultórios, bancos, cartórios, escritórios, gabinetes, etc (Até sei de médicos que tentaram, mas o desejo dos pacientes em ter o livro nas mãos foi mais forte e, em breve tempo, o móvel que geralmente adorna esses locais não mais servia de apoio a poetas e narradores), entretanto, fica mais essa ideia. Além disso, penso que ampliar o acesso a livros e, consequentemente, à leitura e à escrita, por meio de ideias pioneiras e inusitadas, é e será sempre louvável e necessário e que as iniciativas citadas, as não citadas e espaços culturais – mantidos pela inciativa privada ou pelos cofres públicos – que as estimulem, merecem mesmo meus aplausos e minhas reverências.

Para conhecer mais: