"Reverências Bibliográficas" por Iara Fernandes
“...quase
não tínhamos livros em casa
E
a cidade não tinha livraria
(...)
Os
livros são objetos transcendentes
Mas
podemos amá-los do amor táctil
(...)
Domá-los,
cultivá-los em aquários, em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou
lançá-los para fora das janelas
(Talvez
isso nos livre de lançarmo-nos)
Caetano
Veloso/ LIVROS
Já
foi dito por aí que, ao vermos as estrelas no céu, uma parte delas
já morreu, há muito tempo, pois a sua distância de nós era tão
grande que, quando a luz torna-se visível, elas mesmas já não
existem mais, de maneira completa. Talvez esse poético pensar sirva
à leitura, pois cada leitor incendeia a poeira estelar literária,
ao cruzar, por meio do próprio ato da leitura, suas
apreensões de agora com as da obra, no contexto em que ela foi
feita. Uma primeira leitura ou uma releitura da história da Branca
de Neve (Irmão Green), por exemplo, completa o discurso da obra,
escrita séculos atrás, acendendo essa escrita, nos dias de hoje.
Assim é, pois as artes da escrita nunca estão providas de apenas um
significado, passam por temperadas mutações, são recheadas de
sentidos e, a cada tentativa ou efetivação de leitura, o texto é
reconstruído e, com esse ato, recupera-se uma realidade, em vez de
se distanciar dela. São as experiências do leitor e seu infinito
potencial que animam os sentidos que pulsam na veia dos textos.
A
maioria dos municípios brasileiros já conta com biblioteca, se não
a da cidade, pelo menos a de uma escola (lamentavelmente, algumas são
transformadas em depósito de materiais diversos ou espaço de
trabalho para funcionários que não se adaptaram em outros setores
pedagógicos) e, junto à constituição desses espaços, há ainda
alguns modos alternativos de promoção de leitura:
Açougue
Cultural: o
proprietário instalou, em seu açougue, uma estante com dez livros
para empréstimos e doações e transformou-o no primeiro Açougue
Cultural do mundo. Tempos depois, além da biblioteca comunitária
(45 mil livros) há um espaço cultural cujos maiores parceiros são
a Petrobrás e o Ministério da Cultura, com atividades que integram
o Calendário Cultural do Distrito Federal.
Bilbioburro:
uma pequena instituição de um homem e dois burros. Nas costas dos
animais, bolsas com uma eclética carga de livros destinados aos
habitantes das pequenas vilas de uma região empobrecida da Colômbia.
No início, eram 70 livros, hoje, uma coleção com mais de 4.800.
Bibliotáxi:
biblioteca que funciona dentro dos automóveis. Pessoas interessadas
por algum dos livros disponíveis podem levá-lo para casa e seus
nomes ficam registrados em um caderno. Livro lido, ele pode, ou não,
ser entregue em um dos pontos de devolução.
Bicicloteca:
um ex-morador de rua e um sonho: livros e acesso à leitura para
outros moradores de rua. Em parceria com o instituto Mobilidade
Verde, as obras são colocadas no baú de triciclos e emprestadas,
sem burocracia. Dos 107 mil distribuídos, 60% estão com pessoas em
situação de rua.
Borrachalioteca:
pneus, graxa, carros e livros convivendo na maior harmonia, dentro de
uma borracharia. No início eram 70 livros. Dez anos depois, são
aproximadamente 10 mil, só em uma das quatro unidades.
Léo
do peixe: um pescador do rio São Francisco criou um Clube da
Leitura junto à banca onde vendia o seu peixe. Sete anos depois e já
eram 15 bibliotecas populares e um acervo de 20.000 livros doados,
para empréstimo gratuito, à população.
Em
tempos de leituras rápidas em redes sociais, às vezes até com a
limitação em 140 caracteres, há
quem
critique, questionando se essas iniciativas não seriam apenas mais
um tipo de incentivo a uma leitura primeira e, quem sabe,
superficial... eu enxergo duas possibilidades: uma de que, para
alguns, livros ainda cabem bem no orçamento familiar e são mais
atraentes que as telas touchscreen; e outra de que essas ações
solidárias sejam – para um grande grupo – as únicas opções
reais de leitura.
Nada
de enunciados chorosos nos quais livros de contos, crônicas ou
poemas, em vez de apenas revistas de fofocas televisivas, sejam
proclamados, em salas de espera de consultórios, bancos, cartórios,
escritórios, gabinetes, etc (Até sei de médicos que tentaram, mas
o desejo dos pacientes em ter o livro nas mãos foi mais forte e, em
breve tempo, o móvel que geralmente adorna esses locais não mais
servia de apoio a poetas e narradores), entretanto, fica mais essa
ideia. Além disso, penso que ampliar o acesso a livros e,
consequentemente, à leitura e à escrita, por meio de ideias
pioneiras e inusitadas, é e será sempre louvável e necessário e
que as iniciativas citadas, as não citadas e espaços culturais –
mantidos pela inciativa privada ou pelos cofres públicos – que as
estimulem, merecem mesmo meus aplausos e minhas reverências.
Para
conhecer mais:

